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  • ericagonsales

Tempo, tempo, tempo, tempos

Oi linda, então vou te escrever um texto bêbado.


Ouvindo uma música da Marisa Monte sobre a impermanência das coisas. O tempo. As mudanças que o tempo pratica. A função do tempo é fazer mudar tudo, um Deus que nos faz pequenos e gigantes, pra entender essa dor de se mover mesmo sem querer. Porque insistimos em nos prender na eternidade e na permanência do que amamos, de nós mesmos.


Vou te contar um segredo: sempre achei que morreria antes de ficar velha, Digo velha de verdade, não agora. Mas isso deve ser uma fantasia pra me fazer sentir mais especial.


Você me fez sentir especial um dia. Muitos dias. Um tempo que mudou tudo. Hoje parece que o tempo nos pregou uma peça, como é do feitio dele, e fez de nós uma lembrança e nela nos agarramos sem querer deixar que seja novo. Outros tempos.


Há tempos que o tempo não é bonito como foi. É uma sombra onde os brilhos são pontos pequeninos e resistentes. Como aquelas melodias que você ouve de longe sem poder identificar a canção toda.


Minha desilusão é uma solidão constante que é minha e, depois, de tudo ao redor. Não somos mais os mesmos, aquela esquina, aquela taça, aquela ideia, tudo está deslocado sem caber no nosso espaço. Nossa tentativa de criar um mundo outro se dissipa rápido, mas em slow motion, levemente pairando sobre tantas cinzas e horizontes que ainda podemos alcançar. A melodia desconstruída em partes do que junto faz sentido.


Este é o tempo estranho e arredio que a gente agarra em vão. Um tempo dolorido e desmanchado, longo. Este é o tempo de cada um, que não pode ser mais, que se arrasta tentando ser inteiro. Um tempo que não é generoso e

exige que a gente seja, sem forças ou quase sem, o possível e o impossível.


Eu sei, eu sei, eu sei meu bem.


Cena de Muholland Drive, de David Lynch (e minha musa Naomi Watts)

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