top of page

O baterista de New Orleans


Cena do filme Malcom & Marie

A ligação está ruim e a mulher não entende muito bem o inglês na voz grave e cheia de pesar do outro lado do mundo. “I’m sorry…”

  • Filha, é ele.

A mãe avisa apreensiva, telefone à espera, em segundos de silêncio densos como nuvem negra. Letícia tem a respiração curta, os grandes olhos miram sem exergar as luzes das antenas da Paulista pela janela. Acabou de voltar da faculdade, já passa das 11 da noite e sua boca ainda está seca do beck que acabou de fumar. Só está ali parada, vendo luzes desfocadas quando o telefone dispersa seus devaneios. Ia largar o curso de jornalismo, o estágio na revista e um punhado de casos mal resolvidos pra se jogar com um desconhecido em uma turnê pela Europa. Era isso mesmo?


Brady aguarda na linha, ela pode ouvir sua respiração. Até sua respiração é grave. “I can see you”, foi a primeira coisa que ele disse no meio da fumaça, ela tomando seu salário todo em uísque no balcão do bar. Até então só tinha notado o saxofonista da banda. “O que você vê?”, Letícia provoca. A resposta é um suspiro e um gesto que depois ela descobre ser mania: passar o dedão pelos lábios, à la Belmondo em Acossado, só que mais frenético. Menos francês, mais New Orleans. O intervalo acaba e Brady volta ao palco, mas desta vez ela nota. O contrabaixo treme o baixo ventre, o sax desliza pela nuca e Brady apenas toca bateria pra caralho.


Celina é uns 30 anos mais velha, mas cheira pó igual novinha. Depois do show, vão todos pro seu apartamento nos jardins, onde ela oferece generosas carreiras enquanto alisa o pau do baixista com risadas estrondosas. Letícia bola baseados perfeitos sentada em um sofá, coxas nuas, os cabelos bagunçados no rosto. Ao seu lado, Brady tem os olhos fixos na sua língua que lambe a seda e toma um susto quando ela se vira pra ele, como se flagrasse seus pensamentos:


– Do you have a light?


O americano estende o fogo com seus dedos muito longos, e seus olhares se encontram no meio da névoa espessa que se forma. Ela dá um trago sem desviar os olhos, pensa num beijo, mas ele passa as mãos pelos lábios e suspira, “man, unbelieveble!”. Oi? O quê? “You. You’re something”. Letícia também suspira, cruza as pernas e joga os cabelos pra trás pra dar uma risada que é quase só um sorriso. Seu inglês é bem básico e acha que assim a comunicação é mais fácil. As frases cliché que ele diz de forma enigmática soam verdadeiras e, afinal, por que duvidar? Ela gosta cada vez mais.


São mais duas semanas de shows na cidade até que ele continue a turnê com a banda pela Europa. São duas semanas em que ela o vê quase todas as noites e fica convencida de que ele só pode ter se apaixonado por ela. Depois da primeira noite em que dormem juntos, chega em casa e encontra uma dúzia de rosas. Depois de uma semana, ele quer conhecer sua mãe. Leva as duas para almoçar, tomam vinho, ganham caixas de bombons. Toda vez que ele liga pra sua casa e a mãe atende, ficam alguns minutos conversando – apesar da mulher não falar quase nada de inglês.


Letícia acha tudo lindo, mesmo estranhando o jeito dele transar. Fala coisas ininteligíveis e às vezes ri sem motivo aparente, no meio da coisa toda. Parece que ele está em outro lugar, sozinho com ele mesmo. Tem o corpo muito magro, a pele bem escura e um pau muito enorme. Tanto que parece não haver sangue capaz de deixar aquilo duro completamente. Ela acha engraçado. Acha melhor transar com o skatista da faculdade, mas esse aí não dá muita trela, quanto mais jantares, flores e vestidos. Ah, sim, Brady também lhe deu um vestido, que veio embrulhado naquelas caixas grandes, com laço e tudo.


Os dois parecem namorados, mas o baterista de New Orleans vai ter que seguir viagem e ela sabe disso. Não se importa, foram duas semanas divertidas em que foi mimada como personagem de comédia romântica. Mas Brady está triste, seus olhos graves, as mãos passando pelos lábios freneticamente. É a última noite. Um jantar e uma garrafa de espumante depois, estão na cobertura do flat tomando uísque e fumando baseados.

  • Come with me.

Eles nem estão transando, então ela sabe que só pode ser o que ela está pensando. Ele quer que ela vá com ele pra Europa. E fala sério. Brady está apaixonado. Letícia está excitada. Pode viajar de graça, conhecer a Europa, vai ser uma groupie verdadeira, estilo Almost Famous, só que com uma banda de jazz em vez de uma de rock e sem um monte de outras mulheres querendo dividir seu lugar. Sim, sim! Foram pro quarto beber mais, fumar mais e quase transaram – e ele se desculpou e desmaiou. Letícia pensa na viagem, em largar a faculdade, em conhecer Londres, Paris, Barcelona e foda-se todo o resto. Talvez não voltasse.


Ela se levanta pra fazer xixi, já amanheceu, mas Brady nem se mexe. Em cima da mesa, os lírios que ganhou, os copos com restos de uísque, o vestido preto e os sapatos jogados no chão. Ouve passos se aproximando e um bilhete desliza por baixo da porta. Letícia fica ali parada, nua, olhando por alguns segundos o papel dobrado. Anda na ponta dos pés pra alcançar o bilhete. Seu coração bate tão forte que ela pode ouvir. É um recado escrito pelo mensageiro do flat: “Call your wife”.

 
 
 

Comentários


bottom of page