Inesperadamente.


Me fiz uma canção doída de amor. Me vi exausta e desamparada, amarrada na densidade dos meus pedaços, apesar do vento. O céu se tornou impossível e desabou no meu peito. Não sou mais meu lugar, e não encontro um destino meu.


A culpa deve ser minha, pois ela pesa em meus pés. Devia ter feito diferente. Devia ter caminhado, depois corrido em outra direção enquanto meu corpo estava livre, enquanto estava leve, enquanto podia ver a rota de fuga a alguns passos de mim.


Mas fiquei. Escolhi me perder pra descobrir o que essa parte destemida e curiosa e brilhante de mim queria iluminar. E como eu dancei, como eu dei risada, como gozei! E como achei bonito, fiquei linda, estrela.


Mas na hora em eu brilhava mais lá em cima, algo mirou no céu e me atingiu, em queda livre faço tudo errado desde então. Toda errada, todo dia. Vertigem sem breque esperando o baque final, inevitável. Eu no chão chorando bem quietinha. A dor é minha.

Sinto os dedos dela em meus cabelos, alisando mechas com tanta doçura como se fossem beijos. Acordo assim, aquecida em xícaras de café e torradas com manteiga e geléia. Umas palavras simples de quem também carrega entranhas sempre abertas e sangra pra ser. Ela sabe, nós habitamos o mesmo lugar, passeamos as mesmas trilhas de céu e sol e escuro mirando o coração.

Então meu lugar é esse mesmo lugar de todas que aceitam a vertigem de continuamente explodir e juntar pedaços pra chegar inteira, pés no chão. Desatar os nós das malditas culpas e mágoas pra dançar de novo. Rimos juntas, gargalhadas estrondosas, doses coloridas e translúcidas de afeto.


Voltamos pra casa e deixamos, como sempre, todas as janelas e portas abertas. Assim é o lugar. Feito para entrar e sair, para enxergar dentro e horizonte. A música passeia por todos os cômodos, e quando anoitece acendo pequenas luzes e velas. Faço o escuro ser bonito, faço de mim o que preciso.


Estou pronta. Estou solta. Que o vento me leve. Eu sempre volto.

Texto para o ensaio com Mariana Ximenes, clicado por Autumn Sonnichsen para a revista digital Oui Simone

Eu beijaria teus pés

 

Veias grossas nas mãos, pelos, vejo todos eles cobrindo teu braço, o peito, quando levanta a camiseta pra mostrar os colares, cada um uma história. Mas já não ouço, Gustavo, só o cheiro que posso enxergar saindo de você. Penso como explicar, não defino. Cheiro de homem. Pode ser brega, mas é verdade.

 

- A mulher diz: “quero três paus dentro de mim”.

 

Espera. Você me conta dessa sua peça, você escreveu isso. Tá. O texto da peça. É isso que você quer fazer, Gustavo, foder uma mulher nesse grau? É assim que você gosta, de dominar? Seu corpo dança pra falar, cada parte, passando as mãos nos cabelos, até parar  e me acertar com os olhos, prendo a respiração. As cervejas que estamos tomando há duas horas nos deixa assim, boiando no zumzum da praça Roosevelt.

 

Antes só sabia dos seus filmes, suas peças, dos seus prêmios no Festival de Gramado, APCA e o escambau. Desse filme novo do Beto Brant, as cenas quentes. Me disseram que você era sedutor. Agora você aí, sorrindo satisfeito quando conto a fama que tem, como se não soubesse. Uma garota passa de shortinho, montada num patinete. Você diz “que cena linda, quanta besteira posso pensar vendo isso”.

 

Você fala e às vezes alisa meu braço, “eu falo assim, pegando”. Sem esforço me prende na sua  atmosfera dionisíaca. Você diz que Henry Miller é que sabia das putas. Você sabe que toda mulher é meio puta. Agora mesmo imagino como você me faria sua puta direitinho. Não é disso que você gosta? Sim.

 

Vamos sair daqui, entao. Chega de cerveja, você quer uísque. Chegam todas as suas amigas, selinhos na boca. Um beijo compriiido na morena bonita com sotaque gostoso. Gostoso, parece ser delicioso. “Eu amo mulher”. Já percebi, acredito. Você ama o suficiente pra saber o que a gente quer de verdade. Ser esse romântico que fala bonito enquanto pensa sacanagem. Eu quero tudo, Gustavo, isso mesmo. Uma putaria romântica. Uma judiação lenta e terna. Estou esperando.

 

No seu apartamento novo, ainda as caixas da mudança, visto seu chapéu. Ali tuas pinturas, teus escritos, teu Kikito, tua cama. Mas fico nua e ajoelho no chão. Você tira os sapatos e me olha, quieto. Espero. Dá pra ouvir minha respiração, a saliva se juntando na minha boca, pingos que caem de mim no chão da sala. Espero. Não desgrudo meus olhos dos seus. Já não sei se o que penso é minha imaginação ou se fui abduzida e penso o que você está pensando. “Feche os olhos”. Eu fecho. Estou esperando.

Texto para o ensaio com o ator Gustavo Machado, clicado por Deby Gram para a revista TPM

De repente num domingo

 

Você viu aquela negra linda com os cabelos vermelhos? Ela é um acontecimento. Os dentes da frente têm aquele espaço para ver o céu, a bunda é um coração que pulsa firme e vivo, os olhos dela, mortais, puxados ao redor do que o mundo tem de sagrado, raivoso e lindo. Você viu? Olha ela aí, de gargantilha de conchas, beijando na boca com paixão, o namorado rendido e feliz. Sabe da sorte.

Ela é assim uma fêmea arredia e doce, desconfiada e entregue. Diz que é enfermeira, logo se mostra mulher generosa. Tava na cara. Mas nada se tira dela que ela não queira te dar por instinto.

Hoje a gente veio nadar pra ver ela, sob esse zum-zum de água brilhando, vozes abafadas pela sinfonia de braçadas e de mergulhos de verão. Por essas e outras a gente diz que é sortuda. É isso, e ainda uma caipirinha, que dá aquela sensação de que um domingo pode valer uma vida

Texto para a coluna de Autumn Sonnichsen para a revista TRIP