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  • ericagonsales

Os beijos vencem

Estou no meu bar de novo, e quero te ver. Já com coragem etílica te intimo a uma madrugada livre e verdadeira. Insisto, você aceita. Já chego desabotoando sua camisa e, espera, calma. Você está comprometido. Eu estou louquíssima. Fazemos uma pausa pra sentar no balcão da sua sala.

– Nunca consegui te chamar pelo apelido que todo mundo te chama, gosto te falar teu nome: Luiz.

– Por que?

– Porque te faz menos ordinário. E você é especial pra mim.

– Eu gosto de te chamar pelo sobrenome.

– Gosto que me chame assim, mas também gosto quando você me chama de linda. E de puta. Nossa, eu amo essa música… Posso ouvir Caetano pra sempre, qualquer hora.

Você se debruça no balcão e manda um carreira com naturalidade, me encara enquanto tomo outro gole de cerveja da latinha.

– Você se incomoda?

– Não.

– Sabia que quase morri uma vez? Fui parar no hospital, escapei por pouco. Foi a Lúcia, que namorava na época, que me levou. Depois disso pego beeem mais leve, só de vez em quando.

– Nunca gostei de pó. Já falo muito e sou ansiosa demais. Já você…

– Falo pouco?

– Não. Mas não fala o que tem aí dentro. É muito misterioso. Quando você cheira pelo menos se abre mais. Daí eu não gosto do pó, mas gosto que você me conte coisas.


cena de 2046, Wong Kar-Wai

Amanhã a gente trabalha mas a madrugada vence, sempre me vence. Me devolve o abraço amoroso, me envolve e me entrego. As palavras preenchem o tempo e o espaço da noite, os beijos vencem. Quando a boca nada mais pode dizer o corpo grita e a gente sucumbe.

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