Buscar
  • ericagonsales

Incompreendidos

Aquela madrugada, deu em nada, deu em muito, deu em sol

Aquele seu desejo me deu medo, me deu força, me deu mal

-- Luiz Melodia


É meu coração, meu corpo, minha alma. Só eu que senti o efeito daqueles olhares que iluminaram minha mulher selvagem. Só eu me assustei e chorei com gestos que me jogaram no escuro onde o meu corpo é violentado – muito sutilmente, ao contrário dos berros e choros de socorro dos filmes. O choro vem depois, sempre depois, quando você está sozinha. Você sempre está sozinha.


Mas seja um amor tão delicado, ou um sexo casual que se torna um abuso, parece que insistem em me dizer que estou errada. Que a culpa é minha. Eu devia me controlar pra não amar demais quando fosse proibido. Devia dizer não e perdoar quando o desejo do outro deixasse de me enxergar e me machucasse.


Mas estou sozinha quando a dor do amor ou do abuso me agridem, quando finalmente as lágrimas jorram, quando meu coração fica tão espremidinho que o ar desaparece e só posso enxergar minha culpa. Insustentável. Tão pesada que acaba me esmagando até que qualquer luz em mim me traga de volta. O tal brilho que enfim não me abandona.

Todo mundo tem sua dor. E antes de qualquer palavra, tem que saber que ela pode ser poderosa. Na dúvida, um olhar e um abraço, antes das palavras. Os gestos que dão tempo da gente pensar e olhar com calma, e mais fundo, pra alguém. A dor é minha, é sua, e de mais ninguém.


Já é um exercício suado abraçar as próprias feridas e culpas. Se for pra acolher as dores de alguém, que seja primeiro em silêncio. Que seja com perguntas antes das conclusões. Que seja delicado e confortável como um carinho. Que seja com o amor que aceita o bonito e o incompreensível. Que seja a disposição pra entender.


Quando se trata de amor e desejo somos frágeis. Somos sempre frágeis. Muito suscetíveis a palavras. Muito carentes de um sim dito com um olhar. Por mais que a gente fale, é num silêncio que tudo se revela. Se confirma.


O corpo é meu, a alma, o coração. Eu tenho meus amores. Tenho minhas dores. E tenho quem me dê as mãos mesmo estando distante – aqueles que sempre brilham em mim e me dão ar quando sufoco.


Diz um ponto de umbanda: “Bom dia pra quem é de bom dia. Boa noite pra quem é de boa noite”. Todo meu amor pra quem é do silêncio, dos olhos e dos abraços que me acolhem.

Jean-Pierre Léaud (o eterno Antoine Doinel), no filme Os incompreendidos, do meu muso do cinema François Truffaut

61 visualizações