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  • ericagonsales

Delicadas brutalidades

Aprendi com o tempo que para escrever você não precisa de inspiração. Para mim, um taça de vinho ou uma dose de gim caem bem. Mas o que você precisa é apenas sentar, abrir uma tela em branco e começar a digitar. Com música, de preferência. E mesmo com pausas, vai tudo fluindo,


os pensamentos fazem simbiose com as mãos e você embarca inevitavelmente nas nuvens passageiras da sua abstração. O que você nem sabia que estava maturando nas órbitas do inconsciente desatam. E sangram, choram e sorriem pra você gozar das suas delicadas brutalidades.


Falando em brutalidades, eu sempre vivo constante arbitrariedade com minhas delicadezas e rasgos ríspidos de escândalo refinado. Esse equilíbrio entre o impiedoso e o deleite. Dos amores brutos, porque são assim, e doces, porque assim sentimos. Botar limão e gengibre no acúcar e no sal. Um drink seco e amargo com borbulhas pra ser garboso.


Uma amiga me ensinou um drink, que até hoje não sei se tem nome ou se ela inventou, que consiste em servir uma taça de espumante gelada e finalizar com um susto de gim. Neste caso, são as borbulhas radiantes recebendo um lembrete de que o amargo está sempre implícito em devaneios.


Não tenho escrito narrativas eróticas e muito me cobro essa ausência de tesão. Mesmo que faça secretamente videos bonitos gozando comigo e sendo muito linda com o gargalo de uma long neck babada na boca, carnuda de atritos. Talvez esteja pensando demais e espantando os desejos crus das letras. Talvez agora meus líquidos e carnes e sons sejam pra ser só meus. Porque apenas eu posso devorá-los e amá-los como quero.

Uma mordida na boca, uma tapa no rosto, a pele em brasa, as frases sujas e belas que me acariciam além do corpo. Lembranças, promessas de verdade em fuga. Pra um lugar que existe antes e depois, suspenso e desafiador. Meu lugar de ser toda palavra que vive pra ser eterna.


Natalie Portman em cena de Closer

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