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  • ericagonsales

Carnaval passou, eu fiquei

Este carnaval foi um blé pra mim. Nunca fui muito da folia na rua, mas este especialmente incomodou. E me vi admitindo que não gosto mesmo. Pronto. Tenho ímpetos de me sentir um lixo por não gostar, porque é uma festa daora, que enaltece coisas que eu prezo, a liberdade, o sexo, a montação, os brilhos. Só que eu não sou um lixo e não deixo de prezar tudo isso porque tenho pânico de sair na rua no meio da multidão. Sofrendo pra fazer xixi em banheiros químicos ou apenas podres, tomando cerveja quente, sem interesse algum em beijar desconhecidos e usar drogas que não sejam drinks – ou cerveja gelada de verdade.


E no final das contas, este carnaval ruim pra mim foi o que é uma das essências dessa festança: a libertação. Me libertei da obrigação de gostar e assumi de vez que esse lance não é meu. Meu lance é outro, ou são outros. Lances que envolvem sexo e brilhos, beijos e liberdade, em outros contextos.


Minha carne não é de carnaval. Mas é desse espírito, que nasceu comigo, e ficou grudado em mim que nem glitter, pra sempre. Eu tenho certeza que gente é pra brilhar, mas pode ser num balcão, na mesinha do boteco, aqui na frente do meu computador. Pode ser me maquiando sozinha pra ninguém, só pra mim, tomando vinho de madrugada. Por diversão.


Gente é pra brilhar no mato, no silêncio também. Como for mais confortável. Como for mais feliz.

O carnaval é massa. E me libertei de me culpar por não ter talento pra ser foliã. Eu tenho muitos talentos pra brilhar e amar como se fosse carnaval do jeitinho que eu quero. Com quem eu quero. Do jeito que tem que ser.


E quando é pra chorar deixa cair. Porque as lágrimas também brilham.


Cena de 2026, de Wong Kar-Wai

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