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  • ericagonsales

Mais que um café

Uma das maiores perdas com a minha separação foi a máquina de expresso que dei pro meu ex marido de aniversário. Eu amava aquele café cremosinho e perfumado me saudando de manhã. Era algo de especial que eu podia ter todos os dias, no meio do arrasto da rotina.


Agora eu tenho uma cafeteira italiana, que dá um bom café e ponto. Então muitas vezes torno meu café da manhã mais especial com uma mesa bonita, frutas que gosto e panquecas pra acompanhar a minha xícara rosa millennial preferida de café. Só que hoje ele estava ruim, amargo demais, e mesmo assim segui tomando. A cada gole uma careta arruinando meu desjejum.

Cena de Antes do Amanhecer, de Richard Linklater

Pensei comigo: querida, por que você está tomando café ruim se você pode levantar sua bundinha linda daí e fazer outro? E com uma determinação de quem vai mudar a vida toda fui fazer um novo café. Um decente, um bom, um que eu mereça tomar. E enquanto vigiava a cafeteira no fogo, me toquei que ando tomando café ruim desnecessariamente com frequência.


Homens insossos, amizades nauseantes, trabalhos tóxicos, comidas ruins pelas quais eu pago e não peço pra trocar. E novamente me questionei: querida, por que você tá engolindo tanta coisa que nem dá pra saborear?


Pelo mesmo motivo que acordo de madrugada com frio e fico tentando dormir de novo sem vestir uma roupa mais quente: estou presa. Me tranquei nesse lugar vazio pra me proteger do vento lá fora. Como se o incômodo do desconhecido fosse razão pra deixar de admirar o belo. Como se não houvesse, afinal, incômodo em tudo. A porta não tá trancada e eu tenho um monte de casacos lindos e quentinhos pra enfrentar o vento. Tenho desejos simples e imensos pra satisfazer.


Eu quero tomar expresso de manhã, quero ter encontros decentes. daqueles que você vai jantar, ouvir música, tomar vinho, sorvete, passear. Quero ter conversas adultas com pessoas inteligentes, inclusive emocionalmente. Quero cozinhar mais porque na maioria das vezes é muito melhor do que a comida que custa caro e não me dá prazer nem nutre.

O medo de abrir a porta e ir é o medo de viver, pois só se vive indo. E sigo comigo bem abraçada, pra que nada me carregue pra longe dos brilhos que eu sou e gosto. Não vou fazer outro café. Vou comprar uma máquina de expresso pra mim.

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